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João Soares Neto, em "Sobre a gênese e o caos", (Códice, 89 páginas) realiza uma escritura sedimentada na dissolução dos gêneros e na fusão entre realidade e imaginação. Tal procedimento estético-estilístico se dá, em plenitude, na parte II: "O caos". Muito embora o livro seja, cuidadosamente, dividido em dois movimentos: "A gênese" (a - excertos; b - crônicas) e "O caos" (contos), só, aparentemente, tal delimitação se impõe, uma vez que, a rigor, as partes implicam um todo, indivisível, pois corpus de um só discurso.
" Sobre a gênese e o caos" enquadra-se, com propriedade, no que se classifica como "narrativa desmontável"; isto é, a reunião de textos portadores de uma independência apenas aparente, pois, não obstante titulados, um a um, e mesmo dispostos em blocos distintos, intricam-se, convertendo-se em fios de uma indissolúvel teia, cerzida pela presença de elementos recorrentes, tais como: espaço, tempo, ação, personagens, foco, discurso e linguagem. Desse modo, divisão do livro é, puramente, formal, oriunda da cegueira de que o criador, em geral, é banhado ante a presença de sua criação.
Sigamos, pois, tal raciocínio. Assim, "A gênese" - a partir de reflexões a cerca dos destinos da contemporaneidade, bem como da documentação de usos e costumes - funciona como uma espécie de epígrafe dos 11 relatos, configuradores do "Caos".
O primeiro excerto, "O nosso futuro", reveste-se de um tom profético, reiterado pelo ritmo caudaloso, à semelhança dos textos religiosos: É prudente ter medo, é lógico ter receios, mas é preciso que cada pessoa ou empresa não sucumba às primeiras águas, é hora de aprender a nadar contra a correnteza, repetir o fenômeno da piracema e descobrir as nascentes dos novos rios que nunca pararão de correr. (p.17)
Abre, então, caminho para um incisivo retrato do american way of life: a prepotência dos governantes; a ganância das corporações; o egocentrismo aliado a uma indiferença ou alienação ante a dor íntima ou social do outro.
Apresentada ao leitor a atmosfera da pós-modernidade, marcada pela desfiguração do homem e pelo desprezo a valores autênticos, o texto "A Gênese do caos" reforça tudo isso, acrescentando-lhe elementos novos: o ódio ao imperialismo ianque e a ilusão de sua fortaleza. Em "Carta para Bin e Bush"; (29-21) "Barbas de molho"; (32-36) e "Lições não aprendidas", (37-40) o compromisso com os destinos do mundo, os registros de viagens, as inferências em geral acabam por abrir o caminho definitivo em direção aos relatos em si.
Em "O caos", composto por 11 micro-narrativas, o narrador, em terceira pessoa, onisciente e intruso, colhe do cotidiano, personagens que viverão, na carne, as experiências antes discutidas em "A gênese". Apesar de oriundas de diversos espaços físicos e sociais, as personagens têm em comum o fato de agirem como marionetes, guiadas pelas cordas do acaso e do fatalismo. Só, ilusoriamente, são donas de seus destinos, pois, em verdade, à semelhança dos heróis trágicos, vivem tão somente para o cumprimento de uma tarefa. Eis sua inexorável missão: quanto mais se afastam de algo, mais deste se aproximam.
A dicção de João Soares Neto é incisiva, alicerçada em frases curtas, ainda que fortuitamente, haja períodos longos. A linguagem é simples: mas, bem-cuidada, orienta-se pela norma culta e, sem pejo, permite-se certos refinamentos, em diálogos com o poético ou em seleção de vocábulos incomuns:
" Mordiscou, distraidamente uma torrada..."; (p.44) "Aprenda a língua dos ímpios..."; (p.50) "O avião taxiava..."; (p.45) "...um canto ainda piscoso do Rio Potomac..."; (p.57) "...no chão de linóleo..."; (p.60) "... e num esgar, repetia..."; (p.65) presentes, ainda em outras inúmeras passagens.
Quanto ao processo da construção ficcional, vários elementos devem ser levados em conta. Em primeiro lugar a narrativa de João soares Neto não se concentra na trama em si; busca, nas personagens, não as peripécias, mas a angústia da existência, a ânsia em vencer a vida besta, a necessidade de um sentido maior por que edifique o seu haver. A narração, por conta desse traço, serve-se freqüentemente, do recurso do discurso indireto-livre, cuja marca fundamental assiste na ambigüidade, vez que o foco - voz do narrador - mistura-se ao discurso - fala da personagem, de tal modo que, às vezes, não conseguimos demarcar-lhes os limites:... E viu na gôndola próxima um vidro de Channel nº 5. Era a velha tentação. Olhou para os lados e não teve dúvida em coloca-lo na bolsa. O calafrio criava o clima. Era um misto de medo, desafio e prazer. Já discutira isso dezenas de vezes com o seu analista. O desejo furtivo de roubar nada tinha a vê com necessidade, era um impulso incontrolável. Não importa que tivesse o nome de cleptomania. Nunca fora apanhada. Cuidadosa, olhava sempre para os lados e fugia das câmeras (p.45).
Esse fragmento de "A bolsa e o Channel" configura, também, por outro lado, que a técnica do close-up, (consiste esta em concentrar o fio condutor da narrativa, o máximo possível, nas ondulações psíquicas da personagem) decorrente do uso intermitente do discurso indireto-livre ou do fluxo da consciência, serve de esteio para a construção da atmosfera de estorvo de que se tece o narrado.
Perscrutando o indivíduo, recolhendo, minuciosamente, as suas singularidades, como se, para tal, o narrador se utilizasse de uma lupa, há uma natural deformação dos aspectos múltiplos da realidade, alertando o leitor para uma fragilidade do que se anuncia como crosta do tão perseguido sonho americano. Não é sem motivo que as personagens são agentes, amiúde, de atos despropositados, que não visam, deveras, à realização de um desejo.
Estranhas, essas personagens, entregues, passivamente, às mãos de Thanatos. Transgressoras, em comportamentos sociais ou em atos libidinosos, não sofrem punições por isso. O que, no mínimo, imprime-se como uma fina ironia, considerando-se o olho regulador da Justiça americana no que diz respeito à vida social ou privada de seus cidadãos.
Ora, unindo ficção e realidade, João Soares Neto, tendo como motivo os atentados de 11 de setembro de 2000, procura, com fidelidade, reconstruir espaços e situações. Assomam logradouros, ruas, prédios, cidades e estados norte-americanos. Enumeram-se usos e costumes; e, assim pequenas tragédias pessoais, tais como: divórcios, orfandade, ao mesmo tempo em que humanizam as personagens atuam como contraponto ao anátema maior de que todas serão vítimas.
Unem-se nessa empreitada, o cronista e contista João Soares Neto, e disso decorre, acidentalmente, um micro-romance. Sim, ao longo dos textos há um narrador que não quer permanecer distante do narrrado, por isso, de quando em vez, emite juízos de valor, sempre com laivos de sarcasmo, de fina ironia; conversa, também com o leitor, especialmente quando recolhe fragmentos de costumes, (A gênese - b) discorrendo sobre leituras e viagens, emoldurando seu modo de ver o mundo. Não menos importantes são suas reflexões acerca do modo como os Americanos do norte vêem as outras etnias, e como são vistos por estas.
Os 11 episódios, enquanto contos, possuem unidade dramática, e redução de tempo, de espaço e de personagens. Entanto, se concebidos como micro-narrativas, inscrevem-se com simultaneidade dramática, pois, as personagens, estejam em corredores do edifício ou em salas de trabalho, em poltronas de avião ou em templos religiosos etc, convergem a um só ponto: o da explosão, seja a esta das torres, do Pentágono ou do vôo na Pensilvânia. Assim, lidos, em conjunto, todos os textos articulam um quadro ordenador da nossa contemporaneidade: A hegemonia dos Estados Unidos pode ter gerado nos países ou etnias de origem terrorista o estopim desses atos tão brutais quanto insanos. É muito cedo para saber os desdobramentos de tão graves acontecimentos, mas ainda não é tarde para revermos os valores da sociedade, especialmente de suas elites dirigentes... (p.28).
João Soares Neto, em "Sobre a Gênese e o caos", entrelaçando esplendores e barbárie, dá um testemunho firme sobre uma organização social e humana, seguramente, insustentável, protagonista e vítima de toda a espécie de crimes, quer contra o indivíduo, quer contra a coletividade, alertando-nos para a corrosão da sensibilidade, enquanto lá fora, o ódio aduba terríveis canteiros.
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