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JOÃO SOARES NETO: A sua frase “o grande passeio da vida é ficar em casa” é reflexo do tempo vivido ou a consciência do tempo dissipado? Filhos, dá para definir? CHICO ANYSIO: É fruto da experiência da vida. Eu sempre digo que a única vantagem de envelhecer é saber mais. Não há uma segunda. Hoje, por saber mais, eu já descobri a bobagem que é perder uma noite numa boite. Aprendi a ter paciência e deixar para ver o filme de grande sucesso que está no cinema, daqui a dois meses no cinema da minha casa que tem surround e uma tela confortável. Eu já estou quase preferindo ver meus cavalos correndo na tela da minha TV, sem precisar ir ao prado. Vou ao prado apenas para tirar uma foto com os que vencem, porque a corrida eu vejo na varanda, através da televisão. A consciência do tempo dissipado é uma contingência natural da vida. Quanto à definição de “ filhos “, que você me pede, eu confesso que não tenho capacidade de o conseguir. Filho, no fim de tudo, é algo que só sabe quanto é bom quem tem. Mas os filhos têm, ao mesmo tempo, um problema enorme: eles crescem. E quando os filhos crescem viram nós. CHICO ANYSIO: Não somente muito conhecido meu como fui eu quem o divulgou. Eu concordo inteiramente com isto, porque na minha opinião, o dever número um do humor não é tirar um sorriso de alguém, mas alertar a muitos para os erros da vida. Infelizmente eu não tenho poderes para corrigir o que há de errado, mas tenho o dever de denunciar, de enfiar o dedo numa ou noutro ferida, de desmascarar um ou outro patife. É preciso, no entanto, um grande cuidado: não se pode fazer uma piada sobre uma hipótese, mas somente sobre o que é real. Se eu brinco com algo errado mas que é real, ninguém reclama da minha graça e todos ficam sabendo que aquilo existe. Quanto à tristeza de Chaplin, ela fazia parte do todo, porque Chaplin era também um humorista. CHICO ANYSIO: Eu já estive semi-eleito. Uma ocasião, com a ajuda do Arnaldo Niskier, eu tinha 19 votos garantidos e me faltavam apenas dois para que fosse eleito para a Academia Brasileira de Letras um representante do Humor Brasileiro. Quando eu liguei para o meu amigo João Ubaldo Ribeiro, ele me tirou a entrada para a Academia da cabeça, com uma frase: “Chico, você vai ter que ir a velório de gente que nunca viu na vida e um sem número de pessoas vai passar a torcer pela sua morte, para entrar na sua vaga”. E ainda me falou que até aquele dia estava arrependido de ser um imortal. Mas eu a levo a sério. Se vez em quando dou uma balançada, como, por exemplo, quando Marco Maciel foi eleito.
JOÃO SOARES NETO: Você já sonhou como se fosse um dos seus 400 tipos? Se não sonhou, como imagina que seria o sonho? CHICO ANYSIO: Como eu não poderia sonhar com os meus tipos, se todos eles, para mim, são reais ? Eu sonho muito com muitos deles. Eles participam como se estivessem todos ali, ao meu lado, num mesmo show em preto-e-branco. O grande defeito de sonho é que ele, como os filmes “cerebrais” ou não terminam ou não terminam bem – o que ainda é pior. Mas já tirei esquetes de sonhos que tive com meus personagens. CHICO ANYSIO: -A deprê faz parte da minha vida há 18 anos e já convivo com ela numa boa. Tomo os remédios que colocam no meu organismo os sais que faltavam – e por esta razão a deprê bateu – e vou em frente, porque não posso parar. Só na estréia dela foi que eu deixei a barba por fazer e fiquei 12 dias sem sair do quarto. Agora ela já é de casa, já nos chamamos de você e não mais de “meu senhor” ou “minha senhora”. CHICO ANYSIO: Já fiz análise durante anos. Lacan. JOÃO SOARES NETO: “Quem tem medo de CHICO ANYSIO” na Globo? CHICO ANYSIO: Atualmente, ninguém. Há alguns anos é possível que um ou outro tivesse. JOÃO SOARES NETO: Você acredita em karma? Se acredita, qual o seu? CHICO ANYSIO: Sim, eu acredito. Não devo ter um apenas, mas vários. Ser o cara que lança novos comediantes – o que não deixa de ser “o cara que lança novos concorrentes”, deve ser um deles; também deve ser meu karma isto de ser o cara que dá oportunidade a quem já não tem nenhuma. Mas adoro os dois. Consertar mulheres erradas já foi um karma, do qual consegui me livrar a algum tempo. Mas, pensando melhor, nada disso é karma, é apenas uma coisa que pede um pouco de calma. Paciência, melhor dizendo. JOÃO SOARES NETO: O que é a ingratidão? Como reage a ela? CHICO ANYSIO: Ingratidão é o que há de pior na vida. Eu sou um homem sem inimigos e sem maiores rancores. Perdoar é o meu esporte favorito e o mal que alguém me faz hoje, depois de amanhã já é um passado longínquo. Mas, desafortunadamente, eu ainda não consigo esquecer uma ingratidão, porque esta praga desmancha, quando aparece, algo de muito bonito que se fez. A ingratidão é uma enorme onda de lama que entra por uma casa branca e limpa, toda forrada por um carpete azul claro, com móveis leves e habitada por gente boa. Esta onde de lama varre o que há na casa, destrói as coisas e, muitas vezes, também as pessoas. Eu não aprendi ainda a reagir à ingratidão. Estou tentando aceita-la como um ponto de fraqueza no caráter de alguém a quem se quer bem, porque a ingratidão só dói quando vem de alguém a quem fizemos o bem ou queremos bem. JOÃO SOARES NETO: Nizo Neto parece sofrer o peso do nome e a incompreensão dos homens da platinada, mas é um grande talento. Se você tivesse que fazer a abertura de um “book” dele, o que escreveria? CHICO ANYSIO: Nizo Neto poderia ter sido um dos melhores galãs jovens do Brasil, se lhe tivessem dado as chances que merecia. Hoje, com o cabelo começando a ficar branco, está preparado para ser um belo “central”, sem contar que tem toda a sabedoria e o talento de um comediante, o que o faz capaz de representar papeis cômicos com grande competência. CHICO ANYSIO: A arte é uma impostora. Uma deliciosa impostora. Nós que fazemos arte, fabricamos delícias e angústias, ódios e amores, matamos leões e corremos de gatos, criamos mentiras e as fazemos tornarem-se verdades. Tudo em nome da arte é possível, porque a arte é ficção e com a ficção não há quem possa. Quando a ficção não dá certo é porque é realidade. JOÃO SOARES NETO: Você que também é cineasta, acredita que a frase da L.Severiano Ribeiro, “cinema ainda é a maior diversão”, vai varar todo o século XXI? CHICO ANYSIO: Digo que sim, sem nenhuma dose de certeza, mas não tenho coragem de negar. Do fim da segunda guerra até hoje, nestes 54 anos, o mundo progrediu dez mil vezes mais do que em todos os anos anteriores. Veja o número sem fim de coisas que foram revolucionárias há poucos anos e hoje já nem existem, como o LP, o pick-up, a rádio-foto, o próprio fax está nos estertores, assim colocado pelo advento do e-mail. Como serão as coisas dentro de trinta ou quarenta anos se hoje, com 50 pessoas e um computador, faz-se a cena de um estádio lotado? O meu grande medo é que esses caras que fazem milagres e misérias com a computação gráfica encontrem um jeito de substituir o ator. JOÃO SOARES NETO: Capistrano de Abreu, outro maranguapense ilustre, alertava na década de 20 do século passado que os morros cariocas, se não fosse resolvida a sua ocupação, seriam o maior problema do futuro do Rio. Você acredita que há saída para a violência no Brasil? CHICO ANYSIO: Ah, João... o Rio de Janeiro é a maior cidade litorânea do mundo e, ao mesmo tempo, a única onde os pobres moram nas encostas e os ricos embaixo. Os morros já foram cantados pelos maiores compositores e cantores do Brasil, porque 98% dos habitantes do morro são pessoas boas, trabalhadores, gente que ganha pouco e por esta razão só achou este lugar para morar. “Este lugar” já foi um barraco, de madeira, tendo zinco como telhado. Hoje os morros estão ocupados por casas pequenas e mal feitas, mas de tijolo e com telhas caneladas. Duas coisas faltam a estas casas: emboço e uma pintura por fora, porque o mais elas têm. A luz vem de um gato roubado do poste, a água de um gato roubado do cano da rua, a tv a cabo de um cara que comprou e divide (roubando) com 19 ou 20 amigos. As favelas, que quando menores eram até bonitas, hoje são enormes e nelas se abrigaram os traficantes, o que fez com que elas se tornassem o pavor que hoje são. Capistrano de Abreu foi genial na sua previsão, mas a violência não nasce na favela, no morro do Rio. A violência nasce no cara que planta a coca, no que a compra, no que a refina, no que a prepara, no que a vende e, principalmente, no que a consome, porque se ninguém consumisse, o tráfico terminava. JOÃO SOARES NETO: Maior de 70, o que espera para os menores de 18 anos no Brasil? CHICO ANYSIO: Ei, senhor, que perguntinha danada ! Eu ainda tenho dois nesse time, mas moram em New York e vivem noutro tipo de vida. Dos que estão nesta faixa e moram no Brasil, eu espero que haja uma mudança no ensino e eles passem a ter prazer em ir à escola, em vez desse ódio de hoje; espero, também, que eles troquem o modismo pelo realismo e a realidade é azul, enquanto o modismo é vermelho. Eles têm que entender que esta música abjeta de hoje não lhes dará direito a recordações no futuro, como nós temos com os boleros e as canções do Chico e do Caetano. Eles têm que dar ao amor a importância que o amor tem, em vez de utilizarem essa bobagem de “ficar”, porque “ficando”, nada fica. A vida é curta e passa depressa. Por esta razão, temos que a viver devagar, curtindo cada dia, cada hora, cada momento. A juventude vive depressa e quem precisa de pressa sou eu que já vou fazer 73, não os que acabaram de fazer 17. CHICO ANYSIO: Lula mudou. O poder o fez outro homem. Lula cometeu um grande erro (até inexplicável, porque ele já foi Deputado Federal), que foi pensar que o presidente manda. O presidente não manda nada. O presidente VETA. Este é um direito do Presidente da República: vetar. Quem manda são os deputados e os senadores. Por tirar deles o direito de mandar, governando com decretos, Fernando Collor foi tirado do poder. Lula viu isso ao tomar posse. Então, por ser muito inteligente, entregou à direita o comando financeiro e ficou com o social. Ele deu um jeitinho de esquecer o PT e ficou bem com os dois lados. A sociedade paulista o admite porque ele é presidente. Quando seu mandato terminar, ele não terá a mesma aceitação, porque ele é nordestino e pobre. Isto, para paulista, é a mesma coisa que dois pecados. Lula entrou pobre para o cargo e dele sairá pobre, porque é um homem honesto. A sociedade paulista é a pior do pais, porque se julga a melhor, a mais rica, a mais sábia, mais informada. Mas, comprovadamente, ela é apenas a “mais pior”.
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