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JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA CHICO ANYSIO Francisco Anysio de Oliveira Paula, cearense, cidadão do Rio e do mundo, 73 anos, maior humorista do Brasil, casado seis vezes, é meu amigo desde o final da década de 60. Recentemente, batemos um longo papo sobre seus pais, irmãos, a vida, idéias, Rede Globo, depressão, Ceará, presente, passado, futuro e muito mais. Fruto dessa descontração, surgiu a presente entrevista, misturada com café e sucos e a entrada rápida, em cena, de sua atual mulher, Malga, que havia sido mordida no ombro por um mosquito e foi procurar remédio. JOÃO SOARES NETO: Qual a herança genética que fez dos filhos de D. Haydée e Oliveira Paula os talentos que são? CHICO ANYSIO: Olhe, João, eu não entendo de genética e sei, apenas, que nos cavalos PSI (puro sangue inglês) ela é perfeita e total. Os filhos da D. Haydée têm um lado artístico pela parte dela, que tocava piano, declamava e, se tivesse nascido em 1980, com certeza seria, no mínimo, uma bela atriz – e atriz bela. Pelo lado do meu pai, eu herdei o senso de humor, porque o Coronel Oliveira Paula era muito engraçado e, no conviver diário, foi a pessoa mais engraçada que eu conheci, porque ele não “fabricava” uma piada, ele a fazia com a maior naturalidade e tranqüilidade. O Elano é quase um gênio e a Lupe só não foi a grande atriz que merecia ter sido, porque por 30 anos o marido dela a proibiu de representar. O Zelito é um cineasta e produtor cinematográfico dos melhores e não sei de quem ele herdou isto. Mas temos, todos, uma coisa em comum: somos pessoas muito decentes.
JOÃO SOARES NETO: A genialidade compartilha o DNA
com muito trabalho e estudo, ou não? JOÃO SOARES NETO: Entre a firmeza e a compaixão de D. Haydée e o jeito agridoce do Cel. Oliveira Paula, como se dividia o seu coração? CHICO ANYSIO: Dividia-se ao meio. Minha mãe era uma santa que muitas vezes conversou com Jesus e outras vezes convidou Nossa Senhora a sentar ali ao seu lado, na cama. Meu pai nasceu fora de época. Era um grande batalhador, um homem sem estudo mas com um talento incomensurável. Ele deveria ter nascido depois da segunda guerra, quando começou o grande impulso de progresso do mundo. É insuportável saber que meu pai morreu antes do fax, da xerox, do computador, do telefone celular. Sua empresa de ônibus (que se acabou num incêndio sem estar no seguro) era exemplar. Nunca mais se viu outra sequer parecida, neste pais. Minha mãe tinha paciência com ele e, melhor ainda, o perdoava. JOÃO SOARES NETO: Elano Paula, seu irmão, como poderia ser descrito? CHICO ANYSIO: Elano é uma das pessoas mais brilhantes que eu conheço, além de ser quem mais entende de habitação e poupança neste país. Sempre foi de grande competência e tirocínio absolutamente certo. Se errou, na vida, errou tão pouco que nenhum desses prováveis erros em nada o atrapalhou. Foi sempre correto com seus empregados e, mais ainda, se isto é possível, com seus amigos. É um homem que não nega uma ajuda se ela estiver ao seu alcance e tem um grande prazer em colaborar com um amigo que tenha à sua frente algum embaraço. Ele sabe dos becos e das vielas da vida e por eles caminha com a mesma desenvoltura com que anda pelas avenidas e viadutos. JOÃO SOARES NETO: Lupe, sua irmã mais velha, casada com médico famoso, optou por ser atriz. Você acredita que a arte de representar é tão forte quanto os laços afetivos? CHICO ANYSIO: No caso da Lupe eu até me arriscaria a dizer que o casamento dela só não foi um grande desastre porque dele nasceram três mulheres admiráveis; mas o marido dela foi um grande corte na sua vida. A Lupe, no concurso que fizemos, na Rádio Guanabara, no qual eu tirei o sétimo lugar, ela tirou o terceiro e era, depois da Fernanda Montenegro, o grande trunfo do Alfredo Souto de Almeida, diretor da rádio. A proibição do seu noivo, então, foi cruel. Ela sofreu demais esta proibição, ainda mais ao ver que enquanto o tempo passava, mais certo eu dava. Nós todos na família, tínhamos como certeza a sua separação, mas ela continuou ao lado dele e junto a ele está agora, no pior momento da vida, pois ele está esclerosado e cego. Um grande karma. A arte de representar que tanto ele proibiu é, hoje, quem garante as despesas da casa. Minha irmã é uma vencedora. JOÃO SOARES NETO: Zélito Viana, o caçula, cineasta acima dos críticos, teria tido sucesso em Hollywood se tivesse largado tudo por aqui? CHICO ANYSIO: Não. O Zelito é um cara muito bom, profissionalmente. Foi o produtor dos sonhos do Glauber Rocha e dirigiu filmes admiráveis, como “Os Condenados” e “Villa Lobos”. O problema é que ninguém muda o temperamento de ninguém e assim como eu sou 220 volts, o Zelito é 12 volts – nem dá choque. Eu faço seis, sete coisas ao mesmo tempo, o Zelito faz uma da cada vez e sem a menor pressa. Hollywood é um campo de batalha e lá o Zelito morreria no primeiro combate, porque ele sequer pegaria numa arma. Eu o levei para a TV numa ocasião, para dirigir um programa que eu fiz em 1981, chamado “ Chico Total”. O programa era mensal e, mesmo assim, ele achava um absurdo de tanto trabalho. Hollywood nunca poderia ser a praia dele. JOÃO SOARES NETO: Lília, a irmã que partiu, era cearense desterrada, paraibana compulsória ou carioca assumida? CHICO
ANYSIO: Lilia foi uma cearense desterrada que nunca assumiu
a Paraíba ou o carioquismo. Ela odiava morar em João
Pessoa, mas o marido era médico na Paraíba, tinha
lá em João Pessoa a sua clientela e ela – mãe
de 3 filhos paraibanos nada podia fazer a não ser suportar
a barra para ela pesadíssima de morar longe da família.
Isto a levou a uma quase loucura. Ela morreu por causa disso, sofrendo
de uma esquizofrenia compulsiva. Foi minha primeira fã, minha
primeira platéia, minha grande incentivadora. Veja que minhas
irmãs não se deram bem nos seus casamentos. CHICO
ANYSIO: Para com isso, João. Quem é sofisticado
? Eu sou a coisa mais simples do Brasil. Mais simples do que eu
só... só.. o quê ? Arroz com feijão –
que é o que eu como todos os dias.
CHICO ANYSIO: O Ceará é importante demais para mim, porque ele representa a minha infância, o momento melhor da minha vida, quando eu era filho de rico, tinha um rio em Maranguape que parecia correr somente para mim, uma casa onde havia o quarto onde eu nasci. Os oito primeiros anos da minha vida foram deslumbrantes, pois em Maranguape ou no quintal da nossa casa no Benfica, eu brincava de cabeçulinha, gol-a-gol, rodava pião e nunca o meu pai ou a minha mão encostaram a mão em mim, num gesto de castigo. Foi no Ceará que eu aprendi a ler sozinho e tive o cuidado de uma babá chamada Teonilha a quem devo os primeiros carinhos e que por me amar foi mandada embora – não deixou que me enganassem, fazendo-me comer uma carne que eu não gostava. Eu cresci no Rio de Janeiro, mas ai, tudo já foi bem diferente. O bom da vida eu tive nos oito anos de Fortaleza e Maranguape. JOÃO SOARES NETO: Sua admiração por Renoir deu cor e sentido às suas tintas? CHICO ANYSIO: Quem dera, João, que eu pudesse ter, no que pinto, qualquer mínima coisa de Renoir. Ele é um dos meus ídolos, como Velásquez, Van Gogh, Sérgio Telles e Matisse. Minhas tintas tiveram, no início, o sentido de um hobby. De uma hora para outra eu percebi que já tendo vendido mais de mil quadros, aquele hobby já era um trabalho. Segui nas minhas marinhas e vendi mais dois mil. Hoje mudei meu estilo. Minha pintura hoje é fauve, um movimento nascido pelas telas de Matisse e seguido por Derain e alguns outros, gerando, afinal, o expressionismo alemão de Kirchner, para onde certamente acabarei caminhando. O sentido final das minhas tintas é que elas sejam o emprego da minha velhice. JOÃO
SOARES NETO: Você concorda com Nietzsche quando ele diz:
“No amor e CHICO ANYSIO: No tempo em que Nietzsche viveu, isto deve ter sido verdade, mas apesar de Nietzsche ter sido um cara genial, o tempo passou e a vida mudou de cara. Eu escrevi um livro ( “O Analista”) onde defendo uma tese: o que Freud diz não tem mais a menor validade porque o tempo é outro; Freud nunca soube de uma curra, de gente fumando maconha, de um canal de sexo explícito, de duas mulheres se casarem com o beneplácito da Rainha da Inglaterra e o mesmo acontecer com dois homens com o “ de acordo” da Rainha da Holanda; Freud baseou suas teorias num tempo em que as pessoas andavam de charretes e os amantes não iam muito além de uma troca de bilhetes. A mulher de hoje é até menos mansa do que a de trinta ou quarenta anos passados, mas ainda não é bárbara como os homens. Eu, por exemplo, nunca soube de UMA serial killer. A minha versão é de que no amor e na vingança a mulher é doce. |