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JOÃO SOARES NETO ENTREVISTA ARTUR EDUARDO BENEVIDES
JOÃO SOARES NETO - Como eram Pacatuba e sua família? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Pacatuba, mais do que uma cidade, era um estado de espírito. E minha família, que desfrutava de prestígio político e situação econômica satisfatória, vivia imensamente feliz, num clima de fraternidade. JOÃO SOARES NETO - Fortaleza foi atração ou porta natural? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - As duas cousas. Quando a conhecemos todos nós a amamos. JOÃO SOARES NETO - Como era a Fortaleza da sua juventude? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Serena e poética. Uma ilha de paz. JOÃO SOARES NETO - Você reescreveria o seu primeiro poema? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Não sei. A estrada da criação literária foi longa, com mais de quarenta livros publicados, sendo a maioria poesia. Além disso, a linguagem literária se aperfeiçoa com o tempo e se enriquece. JOÃO
SOARES NETO - O poeta nasceu no Grupo Clã ou já
estava feito? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Fui um dos fundadores do Grupo, o maior que o Ceará já teve, e já havia publicado muitos versos. JOÃO SOARES NETO - Afinal, CLÂ é mais memória ou foi realidade mesmo? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Realidade das melhores e memória das maiores. JOÃO SOARES NETO - Que caminhos lhe surgiram, além da poesia? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - O ensaio e o conto. Jamais tentei o romance e o teatro. JOÃO SOARES NETO - A UFC foi pedra ou luz no seu caminho? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Foi uma grande luz no meu caminho. Mas, ajudei a acendê-la. JOÃO SOARES NETO - Quem era Martins Filho? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Um dos dez maiores cearenses de todos os tempos. Um exemplo de trabalho e de idealismo. JOÃO SOARES NETO - Quem ajudou Martins Filho a ser o que foi? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - A sua fé, a sua esperança e o seu profundo desejo de ajudar o nosso estado. Ao lado disso, a colaboração de alguns companheiros que ele chamou para a grande tarefa de criar um novo Ceará. JOÃO SOARES NETO - O Professor Artur era severo ou bonachão? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Nem uma cousa, nem outra. Era, como ainda sou, um homem que sonha e se mantém fiel ao seu destino. JOÃO SOARES NETO - Mário Quintana disse que um poeta deve escrever como se fosse o último vivente sobre a Terra. Você concorda? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Inteiramente. Sem isso, não atingirá suas metas, nem realizará sua missão. JOÃO SOARES NETO - Um poeta define amor sem fazer verso? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - O amor independe disso. É uma iluminação. E quem ama atinge a sua plenitude. JOÃO SOARES NETO - Quais foram as suas ilusões ao se tornar poeta? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Não houve ilusões. A poesia era o meu caminho. JOÃO SOARES NETO - Namorar tem hora, tempo e lugar? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Namorar é um processo inesperado que nos ajuda no enriquecimento de nossa alma. JOÃO SOARES NETO - Quais de suas obras você gosta mais? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Para quem escreveu mais de 40 livros, em poesia, ensaio e conto, difícil dizer. JOÃO SOARES NETO - Como entrou na Academia Cearense de Letras? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Indicado, sem que nada soubesse, pela inesquecível Henriqueta Galeno. JOÃO SOARES NETO - O que é a Academia? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - No gênero, a instituição mais antiga do Brasil, anterior à Academia Brasileira de Letras. Somos , irrecusavelmente, capítulo especial de nossa História, com uma caminhada que se inicia a 15 de agosto de 1894, em sessão realizada no Salão de Honra da Fênix Caixeiral, de que participaram, entre outros, o Barão de Studart, Justiniano de Serpa e Farias Brito, o grande filósofo que o Ceará deu o Brasil. (Revista ACL, 93/94, 149). A ACL,no conteúdo e na ação, é uma força a serviço da cultura cearense. JOÃO SOARES NETO - Como é ser presidente entre os iguais? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Dirigi a Academia durante doze anos, sendo hoje Presidente de Honra, e nunca tive problemas. Procurei manter-me como um acadêmico igual aos companheiros. E recebi a ajuda de muitos. JOÃO SOARES NETO - Do Edifício Progresso para o Palácio da Luz (antiga e atual sede da Academia) foi só atravessar a rua? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Foi muito mais. O Palácio da Luz, para onde chamei todas as instituições culturais do Ceará, que não tinham sede, nos foi dado por Lei pelo então Governador Tasso Jereissati. E hoje é a grande Casa da Cultura Cearense, cousa de que me orgulho. JOÃO SOARES NETO - O que você considera o marco de sua vida? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - A Poesia. E o que, realmente, haverá de mais importante para qualquer escritor do que a procura da beleza, a que serviram Apolo e Dionísios e todas as Musas, e todas as Ninfas, e todos os Anjos, e todos os bardos e menestréis do mundo, e todos quantos morreram de amor?(revista ACL, 93/94, pág.151) JOÃO SOARES NETO - Você, que é o Príncipe dos Poetas Cearenses, foi eleito ou escolhido? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Fui eleito por dezessete instituições culturais do Ceará, sob a coordenação do inesquecível Itamar Espíndola. O primeiro Príncipe foi o Padre Antônio Tomaz; o segundo, Cruz Filho; o terceiro, Jader de Carvalho; o quarto, eu. JOÃO SOARES NETO - Você se considera da Geração de 45? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Eu e todo o Grupo Clã. A Geração de 45, como as demais, não se mede por idade, mas pelas idéias e caminhos. JOÃO SOARES NETO - Se tivesse que escolher três nomes, entre Camões, Baudelaire, Pessoa, Castro Alves, Drummond, Francisco Carvalho e Shakespeare, com quem ficaria? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Ficaria com Camões (o lírico), Fernando Pessoa e Shakespeare. JOÃO SOARES NETO - Goethe dizia que "nós somos seres coletivos". Um poeta é um ser coletivo? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Como representante do pensamento de uma época e sintetizador de seus sentimentos, sim. JOÃO SOARES NETO - O que o fez disputar vaga na Academia Brasileira de Letras? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Um momento de burrice. A ABL é um órgão fechado e quase todo os seus membros são cariocas. Quem mora longe, dificilmente chega lá. O Arnaldo Niskier, criticando isso, disse-me certa vez que ela deveria chamar-se Academia Carioca de Letras. Veja o exemplo de nossa Rachel de Queiroz: só foi eleita depois de ir morar no Rio... JOÃO SOARES NETO - Qual é o futuro da Poesia? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - A poesia é eterna. Desde Homero ou Salomão, ou antes. Dos poemas de Homero, aliás, nasceu o romance. E os versos de Salomão fazem parte da Bíblia. Com o material transcendente da criação, trabalham, em todas as épocas os grandes poetas e escritores. JOÃO SOARES NETO - Falando sobre aspectos polêmicos da Obra de Shakeapeare você põe em dúvida a legitimidade da autoria e o problema da originalidade. Por quê? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Se examinarmos o problema da originalidade e legitimidade da autoria, em relação a grandes obras da literatura universal, veremos que algumas delas seriam adaptações de outras, ou a erudização de temas populares aproveitados, com maior largueza e beleza de linguagem, em criações que se tornariam inesquecíveis. Para citar apenas três dos mais importantes autores do mundo, estariam nesse rol a Odisséia, de Homero, o Hamlet de Shakeapeare, e o Fausto, de Goethe, todos três recriados de histórias mais antigas, que pertenciam ao patrimônio da cultura popular. JOÃO SOARES NETO - Quer dizer, então, que, por exemplo, Romeu e Julieta é um plágio? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Romeu e Julieta é inspirado em lenda muito antiga, da qual se conhecem as recriações de Xenofonte, de Masuccio de Salerno, e Luigi da Porto, Mateo Bandello e Arthur Brocke. Acrescente-se o fato de que as duas famílias rivais, de Verona, estão mencionadas por Dante no Canto VI do Purgatório, na Divina Comédia. Coube a Shakespeare, portanto, uma das versões, a mais bela de todas, não sendo, contudo, uma criação rigorosamente sua, da mesma forma que a história do Barba-Azul não é de Perrault, mas aproveitada do lendário popular. JOÃO SOARES NETO - Como é estar maduro? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - É saber ver as cousas na verdade de sua essência, exercitando-se no espírito de compreensão e de justiça. E aproveitando, uns poucos versos de The Tempest ... our litle life is rounded wiht a sleep. E nesse sono que rodeia a nossa vida estão todas as mágoas e esperanças, ou todas as vigílias e solidões do ser humano. JOÃO SOARES NETO - Se não fosse poeta? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Essa hipótese, em minha vida, não tem sentido. Poesia, para mim, mais que Literatura, é vida. JOÃO SOARES NETO - O amor envelhece? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Se envelhecer, não é amor. JOÃO SOARES NETO - Há segunda época no amor? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Sim, principalmente se for para vive-lo com mais grandeza e dignidade. JOÃO SOARES NETO - Que amigos você conversa desde a juventude? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Poucos, mas não mencionarei os nomes, pelo temor de esquecer algum... JOÃO SOARES NETO - Com quem fala o impublicável? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Com ninguém. JOÃO SOARES NETO - Como escreveria uma mini-biografia sua ou um perfil? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Não gostaria de faze-lo. Que outros o façam. JOÃO SOARES NETO - Qual a diferença entre a Fortaleza de ontem e a de hoje? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - A primeira era mais bela e mais humana. A segunda perdeu muito de sua substância poética. JOÃO SOARES NETO - Qual a importância da Academia Cearense de Letras na cultura cearense do século XX? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - A Academia foi o mais importante órgão cultural do nosso Estado, ao lado do Instituto do Ceará. E continua com a mesma importância. JOÃO SOARES NETO - Você acha que a frase - "Os eventos futuros projetam sua sombra muito antes", atribuída a Cícero, tem real sentido? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Sim. A trilogia do tempo é, às vezes, um mistério e os elementos se interligam. O que somos, fomos. Por ação direta ou indireta. JOÃO SOARES NETO - O que é a fé e como ela se manifesta? ARTUR EDUARDO BENEVIDES - A fé é a esperança em súplica, revestida de amor. É força que projeta o espírito em suas múltiplas manifestações, sendo fundamental no ato de viver. |