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MENDES Mendes não era alto, nem baixo, tinha aquela pele macerada das pessoas de idade indefinida, pesava mais que desejava e usava sempre camisa de colarinho branco, mesmo que as calças estivessem meio puídas. Nunca colocara tênis em seus pés e ele mesmo dava o brilho nos cambaios sapatos pretos de cadarço que usava combinando com um cinto largo de ilhoses prateados. No pulso esquerdo tinha um relógio Movado, à corda e “dos bons”, que ganhara de seus colegas quando se aposentara do cargo de almoxarife. Nunca deixou de usar um escapulário que recebeu de um frade capuchinho. Já mudara o cordão quatro vezes. Nos seus 33 anos, 2 meses e 16 dias de funcionário público nunca recebera uma só repreensão e tampouco deixara que tirassem uma folha de papel que não tivesse a assinatura do funcionário requisitante, o visto e o carimbo do chefe que autorizava. “Na minha munheca nunca ninguém vai pegar”, dizia orgulhoso para a mulher e os filhos. Agora, está sem ter o que fazer. Recusava-se a ficar sentado em bancos de praça ou a participar de grupos de terceira idade. O olho esquerdo estava quase perdido por conta de uma cirurgia de catarata feita com médico do SUS. Ainda bem que parte do dinheiro da poupança e a cota de três aniversários serviram para fazer a operação do olho direito com médico particular, cuja única exigência era não dar recibo. Oficialmente, portanto, nunca havia feito operação de catarata no olho direito, o olho que enxergava tudo, até o ruído de seus passos que ficavam arrastados, embora tivesse câimbras ao levantar as pernas para não deixar que os outros percebessem. Pensara em rever os papéis e as fotos que tinha guardado. A mulher estava morta há anos e nada que dissesse respeito a ela tinha mais sentido. Morrera de repente, na realidade “acordara” morta, fria e de olhos revirados. Enfarto no miocárdio, disse o médico que assinou o atestado de óbito. Enterrara-a e nunca mais voltara ao cemitério. Não gostava de conversa com mortos. Até o retrato colorido que tinha com ela na sala foi para a terceira gaveta da cômoda, junto com o terço, o missal e a mantilha que usava. Depois de anos, conseguiu uma namorada, mas isto também já se fora. A namorada era até fogosa e descasada, hoje uma respeitável senhora de seios caídos e largas ancas que cobrara dele uma atenção que os seus sentidos e sentimentos rejeitaram. Não adiantava ela ligar. O seu corpo sempre dizia não e não gostava do cheiro dela, do seu jeito de falar, da sua história de vida e da plástica mal feita que lhe entortara a face. Tentava ser delicado, marcava para depois e já sabia que não iria ao encontro, que só realçava a sua temporalidade. Temporalidade era uma palavra que gostava de usar, ouvira em um discurso de um político famoso, não lembrava direito em qual situação, mas servia para tudo. Para definir o seu tempo, para remexer nos seus sentimentos da infância, da juventude, da fase adulta e da maturidade. Essa tal temporalidade o estava tornando meio esquisito, pois não gostava do que o espelho mostrava. Queria uma face de um tempo mais ameno, menos marcado, mais sutil e não aceitava as reuniões dos aposentados de sua repartição. Era tudo muito modorrento, as caras de sempre, sem graça e a lamúria por falta de dinheiro reinava soberana em meio a cervejas e croquetes frios. Resolvera aprender inglês em curso gratuito no anexo de uma igreja evangélica do seu bairro. Descobrira que Deus era God, ouro era gold. Raciocinou que Deus e ouro eram próximos e isso o encucara. God e gold eram quase a mesma palavra. Não chegara a nenhuma conclusão, mas a questão voltava sempre: God é gold e gold é God, repetia para si. E aprendera também que ele, o aposentado, era um retired. Só faltava mais essa, era um “ritareid” como aprendera a pronunciar, uma pessoa retirada de circulação, tal qual um carro estacionado em lugar proibido e em breve rebocado para desimpedir lugar. E o lugar proibido era o sal da vida, a bebida que não podia ingerir por conta do pâncreas, o amor cada vez mais raro, pois precisava de aditivo e não tinha dinheiro sobrando quando aparecia uma parceira que valia a pena. Se é que aparecia. Ganhara uma amostra grátis do tal aditivo que ficara velha e esfarinhada de tanto mudar de bolso. Aí jogou fora, como se tivesse derramando no vaso o resto de sua masculinidade não aproveitada. Os
filhos davam pouca notícia. Estavam lutando por suas vidas, administrando
seus casamentos e que tais. É bem verdade que não esqueciam o seu
aniversário e faziam uma patuscada com um bolo comprado em uma confeitaria
próxima, um refrigerante de dois litros e depois de uma hora estava tudo
sujo na pia de marmorite e ele só. No Natal, improvisavam uma cota e davam
em dinheiro. Tinha sido com esse dinheiro que fizera a operação
do olho direito. Fora o produto de três natais e uma parte de sua poupança
na Caixa. Essa poupança estava em uma conta com um número bonito:
24681012. Era fácil de lembrar e chegava à agência da Caixa
no horário normal, pois não queria ter o privilegio de ser atendido
mais cedo. Sempre era recebido por uma simpática mulher que o saudava
dizendo: “como vai o meu 24681012?” Ele sorria alegre e tentava esticar a conversa
o mais que podia. A mulher, cheia de carnes, faceira e um brilhante olhar verde,
regulando entre os 35 e quarenta e tantos, não se fazia de rogada, trazia
café e água em copos descartáveis e explicava que os rendimentos
da poupança estavam caindo por conta da queda da inflação.
Um dia resolveu perguntar o seu nome. “É Marisa”, disse ela. “Aliás,
dizem que eu pareço com a Marisa Monte”. Ele não sabia quem era
Marisa Monte, mas sorriu. Será que ela depois do expediente aceitaria
tomar um sorvete com ele? Ela riu e disse: “claro”. Seria na sexta-feira às
18h30min, na praça de alimentação do shopping que ficava
do outro lado da rua. A palavra claro tomou uma significação imensa
para ele. Tudo estava mais alegre, mais bonito e até comprou uma nova
lâmina de barbear, deixou a calça debaixo do colchão, lustrou
os sapatos e esperou pela Sexta-feira, daí a dois dias. A sexta-feira amanheceu radiante, o sol estava claro, tudo era bonito para ele. Até que chegou a hora, bastava atravessar a rua e Marisa estaria esperando por ele. Viu-a do outro lado da rua. Desceu a calçada, colocou o pé esquerdo no asfalto e não notou quando a moto-taxi o jogou longe. Gemia de dor, mas segurava o presente na mão esquerda. “Seu Mendes, Seu Mendes”, ouvia a voz de Marisa ao seu lado, ajoelhada, chorando. Abriu a mão, sorriu, entregou-lhe o presente, fechou os olhos e sentiu o abraço quente e perfumado que o protegia da dor. |