"RACISMO" DE PAULO FRANCIS

Em artigo publicado recentemente pelo jornal “A Folha de São Paulo”, Paulo Francis foi profundamente infeliz em se referir ao presidente eleito, Fernando Collor, como, “alto, bonito, branco, ocidental”. Segundo ele, por força de tais virtudes, Collor teria grandes chances nas negociações com banqueiros e chefes de Estado. No artigo seguinte, ele faz menção a um telefonema que a redação da “Folha” recebeu de uma leitora de “neguinha”.

Todos os que gostam de ler jornal sabem que Paulo Francis é um excelente jornalista com a capacidade de abordar temas diferentes em um mesmo artigo. Todos os que o lêem sabem que ele mora em New York e que lá as coisas acontecem um pouco antes.

Todos sabem que a sua posição de jornalista e intelectual indiscutível, lhe conferem uma capacidade analítica profunda. Mas, quem tiver um pouquinho de atenção ao ler as entrelinhas do que Paulo Francis escreve verificará que ele é um homem isolado no mundo que não tem. É um brasileiro que trata o seu país com ranço de expatriado e, nos Estados Unidos, não passa de um entre milhares de correspondentes estrangeiros. Talvez a perda de identidade de Paulo Francis se deva a sua falta de raízes. Cortou as que tinha no Brasil e não consegue ser no exterior mais que um exótico representante da imprensa de um país de terceiro mundo, onde a maioria das pessoas não é alta, nem bonita e tampouco branca.

Neste último artigo, ao se referir ao ex-ministro Azevedo da Silveira, o chamado de nordestino, como se isso fosse uma pecha e até exulta em afirmar que Collor é do Rio. Diz que Silveira além de ser nordestino não é saneado (sic). É preciso que a direção da “Folha” fique atenta às sandices que Paulo Francis teima em escrever. Não bastam o talento notório e o espaço que o jornal lhe confere. É importante que se diga ao brilhante jornalista que não deve deixar seus ressentimentos aflorarem por culpa, talvez, de suas indisposições.

No mais, lembro que o autor de “Cabeça de Papel” deve ter como máxima o pensamento de A. Warhol de que, “no mundo atual, importa ser famoso por 30 segundos. Mesmo que pelo avesso”.

João Soares Neto

 

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 2/19/1990.

JOÃO SOARES NETO

CRONISTA